Este fim-de-semana houve almoço de família com os tios e primos que vieram lá da terra para anunciar a boda do seu mais velho. Esta é uma história que se repete ciclicamente. Aí uma vez por ano lá chega mais um anúncio de um feliz casal que decidiu juntar-se e dizer sim para sempre (ou sim até ao divórcio, como já vai acontecedo). A fila dos primos solteiros vai sendo cada vez mais curta. Mais velhos que eu só sobra uma. E abaixo de mim só há adolescentes e os filhos de primos mais velhos, que já se está mesmo a ver que vão dar o nó primeiro que eu (mesmo aqueles que têm agora três anos). Mas pronto, é uma coisa com a qual vou vivendo bem e da qual só me lembro quando há mais um casamento (irra, que não acabam!). Ora desta feita estava eu sugadita à mesa, concentrada para não fazer saltar uma amêijoa para o olho do meu primo, quando o meu tio, com TODA a gente à mesa, pergunta "então e tu? Tens namorado?". Atenção, não foi uma pergunta feita de forma discreta, dirigida apenas à minha pessoa, em tom baixo, quando todos estavam a falar alegremente entre si. Não. O homem esperou por um daquele ssilêncios incómodos para lançar a pergunta, alto e bom som, que até a vizinha em coma do 5º andar deve ter ouvido. Desviei os olhos da minha carne de porco à alentejana, bem boa que estava, com esperança que aquilo não fosse comigo, mas era. Tudo calado à espera da resposta. E só me saiu um sumido "está difícil...", quase como a pedir desculpa por ter 27 anos e não ter uma cara-metade. "Ah, era só para saber, porque se quisesses levá-lo ao casamento podias levar. Isto uma pessoa não sabe, depois às vezes não quer perguntar e geram-se mal entendidos. Mas se tiveres estás à vontade. As pessoas gostam de levar os namorados, não é? Por isso já sabes, o convite vem só em teu nome e no dos teus pais, mas se quiseres podes levar. Estás à vontade". Isso. Está a ajudar imenso, hã? Força, vamos enterrar-me mais um bocadinho, vamos? O meu sorriso de amarelo passou a esverdeado, e eu só ia balbuciando "pois... pois...não... não levo ninguém...pois... não". E cada vez mais concordo com aquela mítica frase que diz que a família não se escolhe. Porque se se escolhesse, outro galo cantaria.
Give me a reason to love them
E eles deram. Não uma, mas quarenta. E de repente parecia que tinha andado uns doze anos para trás e que estava de volta ao liceu (mais não seja pela quantidade de ex-coleguinhas que encontrei) e aos dramas e alegrias daquela altura. A voz da Beth Gibbons está igualzinha (a simpatia continua a não ser muita) e, num Coliseu a rebentar pelas costuras, foi arrepiante ouvir Glory Box, Wandering Stars ou Roads (fica o vídeo ranhoso para amostra. Teria ajudado se os únicos quatro gajos com mais de 1,80m não tivessem ficado precisamente à minha frente. E se não tivesse ficado sem bateria). Foi lindo, lindo, lindo, lindo, lindo, valeu a pena a espera. Agora só falta a Fionna Apple seguir o exemplo e vir cá também, para eu poder dar por concluída a minha lista de concertos (faltará sempre Jeff Buckley e Frank Sinatra, mas não deixo de ter esperança de os encontrar noutras paragens).
Nota: relativamente ao meu post sobre os fumadores, depois deste concerto mudei de ideias. Ao ver que se estavam verdadeiramente a marimbar para a proibição de fumar dentro do Coliseu, desejo mesmo é que caia granizo enquanto fumam na rua. Preferencialmente, em forma de pedras da calçada. Depois venham-me cá falar de respeito.

Finalmente, as senhoras do cinema aprenderam a não perguntar "disse que eram quantos bilhetes?" depois de uma pessoa ter acabado de pedir, de forma bastante explícita, UM bilhete para a sala x. Era uma luta antiga (oh, se era, ver posts de há um ano e tal), mas parece que ganhei! Este ano já fui umas quantas vezes e correu sempre bem. Não houve perguntas parvas, não houve olhares de conforto e compreensão, nada. E ontem, só na minha fila, éramos cinco desemparelhados. E eu tive vontade de lhes dar beijinhos de parabéns pela vontade de ir ao cinema ter sido mais forte do que ter ou não companhia. Clap clap clap!

O ano passado enviei um mail a uma pessoa que não me conhecia a explicar os motivos (apalermados) pelos quais se devia casar comigo. De quando em vez dá-me para isto (muito raramente). Sou acometida destes ataques de loucura, e vamos embora, vá de arriscar. Penso que o pior que me pode acontecer é ser brindada com um simpático "não", ou uma recomendação para procurar um psiquiatra, por isso tento a minha sorte. Daquela vez correu bem. Muito bem mesmo, talvez por a outra pessoa também ser assim, meio tresloucada. Tive direito ao jantar mais divertido e interessante da minha vida. E a coisa só não correu melhor e não chegou ao casamento porque a vida dá muitas voltas, fazem-se as opções que se pensa serem as melhores no momento, e blá, blá, blá. No regrets. A coisa correu menos mal. Não ganhei um marido nem tenho uma linda história para contar aos netos, mas fiz um amigo de quem gosto muito e, as voltas são tantas e é tudo tão imprevisível que, vai-se a ver, e um dia até casamos mesmo (a esta altura já ele leu estas linhas e está a empacotar a trouxa para fugir para o Camboja).
Bom, tudo isto para dizer que esta coisa de arriscar tem muito que se lhe diga. Eu acho que são coisas destas que fazem com que a vidinha se torne mais divertida e que quebram aquela rotina chata de todos os dias. E é por isso que de quando em vez, quando acho mesmo que a outra pessoa pode ser interessante e ter algo a ver comigo (aquelas coisas parvas que se sentem, mas que não se conseguem explicar), decido mexer-me. Até porque às vezes o universo precisa de um empurrãozinho. Aquela coisa de ficar à espera eternamente a ver o que nos calha na rifa não é, de todo, para mim. O problema é quando é ao contrário. Quando são os outros que arriscam e me escolhem como objecto do seu acto tresloucado. Se me parece perfeitamente normal que uma pessoa que não me conhece leia um mail meu e vá jantar comigo, já me parece esquisito que alguém que nunca me viu me mande um mail a convidar para um café, lanche ou copo de vinho. Mesmo sem querer, não consigo deixar de pensar que é um qualquer psicopata cujo único intuito é fazer-me às postas. Ou que é um ser completamente entediante que me vai aborrecer de morte (preconceito! preconceito!). Ou que é um hobbit (preconceito! preconceito!). Ou que tem idade para ser meu avô (preconceito! preconceito!). Ou meu neto (preconceito! preconceito!). Decididamente, ainda não entrei na mood primavera. Vou esperar pelos dias de sol para decidir se me deixo ou não surpreender.

As noites de domingo para segunda são, por tradição, noites de insónia. Ou é porque ao domingo durmo até tarde e depois não consigo adormecer, ou é porque estou stressada por a segunda-feira estar à porta ou é por, sabe-se lá por que raio, me dar para pensar mais na vida aos domingos à noite. Pois que ontem consegui adormecer relativamente rápido, sem vislumbre de insónia. Devia ter desconfiado. Às duas da manhã acordei com uma tal dor na perna direita que mal a conseguia mexer. Achei que tinha dado um mau jeito, mas não havia modo da puta da dor passar, e lá fui acordando de duas em duas horas, tentando saltitar pelo quarto para ver se ainda conseguia andar. Às sete da manhã, já em lágrimas, fiz o que qualquer mulher que se preze faz: chamar pela mãe. Primeiro de forma suave, depois aos berros desesperados, como se a III Guerra Mundial estivesse para eclodir. Mulher despachada que é, vá de me massajar a perna com aquele spray para futebolistas fiteiros-como-o-Nuno-Gomes e de me enfiar um anti-inflamatório pela goela abaixo. Foi bonito, mas não resultou. Às nove da manhã, sem melhorias que se sentissem, achei que era capaz de não ser má ideia arrastar a perna até às urgências. E lá fui, a pensar que ou morria da dor na perna ou morria enfaixada contra uma árvore, tal a pressa do senhor taxista.
As urgências da CUF Descobertas são um sítio muito chique e onde se espera praticamente tanto tempo como em Santa Maria. Com a agravante que é muito mais caro e os médicos parecem os estagiários da Anatomia de Grey (e não estou a falar de serem giros, que não são). A médica que me traçou o diagnóstico foi fofinha. "Pelos sintomas, diria que tem um coágulo de trombose atrás do joelho". Oi? Hein? Trombose? Isso não é aquela coisa que uma pessoa ora está muito bem, ora está esticada no meio do chão? Já em pânico, a senhora resolveu enegrecer o panorama. "Pois... parece que é... o problema é se o coágulo soltar umas bolhinhas que vão para os pulmões... isso é que é mais grave, aí já temos que tomar outras medidas. Pelo sim, pelo não, vai já levar uma injecção na barriga, que é um anticoagolante. E depois vai fazer um exame à perna para fazermos a despistagem e ver se o coágulo se confirma". Por esta altura eu perguntava-me se não devia ser ao contrário, primeiro o exame para ver se o coágulo lá estava confortavelmente instalado, e só depois a injecção. Mas não, o que é que eu percebo disto? Há uns que nasceram para médicos e outros que nunca passarão duns reles jornalistas que têm que se conformar com a sua sorte. Por isso deixei-me estar calada enquanto ela ligava para todo o hospital em busca de alguém que me pudesse fazer o exame à perna. "Ah, hoje não está cá ninguém para fazer, é? Pois, mas isto é mesmo urgente, tem que haver alguém. Onde é que anda o Dr-não-sei-das-quantas? Dê-me lá a extensão. (longaaaaaaaaaaa pausa). Sim? Podia-me dar outra extensão? É que ele não está nesta, e tenho mesmo que o encontrar (outra loooooooonga pausa). Olhe, é melhor ir andando para a injecção que eu vou à procura do médico, está bem?". Lá fui, lágrimas nos olhos, ainda a pensar na trombose. E na injecção na barriga, que é coisa com a qual não me dou bem.
Após uns simpáticos minutos na sala de espera, lá me chamaram para a injecção. A correr e a coxear, para acompanhar o ritmo da enfermeira, sentei-me, pus a barriga a jeito e... "aaaahhh... peço desculpa de a ter chamado, só agora é que reparei que não temos cá este medicamento... vamos ter que ir à farmácia buscar... não se importa de esperar lá fora outra vez?". Não, claro que não. Se eu não estivesse aqui no hospital a morrer de dores, estava em casa a morrer de dores, por isso ia dar ao mesmo. Com a parte de em casa poder estar deitada no meu leito sem ter que andar a brincar aos Jogos Sem Fronteiras dos Hospitais.
Ao fim de meia hora o medicamento chegou. Uma vez mais, arrastar-me para a sala, barriga a jeito, "isto não dói nada", e tufas, vá de espetar a agulha. Que, como é óbvio, doeu! Mas para que é que dizem que não vai doer nada se depois dói sempre? É que uma pessoa acredita, pensa que não vai custar, e depois... custa! Nos minutos que se seguiram dei pela minha barriga a encher-se de pontinhos vermelhos e pensei que só me faltava ser alérgica ao remédio, mas não, lá passou. Entretanto apareceu a médica, triunfante como se lhe tivessem anunciado que ia ganhar o Noebel, a dizer que eu ia conseguir fazer o exame. "Só não sei é quando", que é coisa que uma pessoa que está nas urgências gosta de ouvir. Fazer não demorou. Já o resultado, tardou duas horas e meia, o que me levou a pensar em todas as desgraças possíveis que me poderiam acontecer. Acreditei que há muito que os médicos já sabiam o que se passava com a minha perna, mas que estavam a ganhar coragem para me dizer, porque devia ser uma coisa muito má.
Voltei ao gabinete da primeira médica, que depois de olhar com um ar muito entendido para o exame anunciou "está descartada a hipótese de trombose". Ao que eu devia ter respondido "obrigada, sua puta, por me ter feito pensar que se me mexesse um bocadinho mais o meu suposto coágulo soltaria bolhinhas para o pulmão e que eu me ficava por aqui. E ainda bem que andei a anunciar a toda a gente que me ligou que podiam escolher o que quisessem do meu roupeiro". Mas claro que a coisa não acabou assim. "Não é um coágulo, mas tem aqui qualquer coisa na veia... um refluxo... espere aí, que eu não sei muito bem o que é que é isto, vou ali perguntar à minha colega, é só um bocadinho". E eu a pensar que era nas mãos desta gente que estava a saúde nacional. Lá voltou, a dizer que sim, que há qualquer coisa na veia, o sangue vai para cima, mas não vem para baixo (ou vai para baixo, mas não vem para cima, já não me lembro), passou-me um anti-inflamatório e mais umas merdas, que se doesse que voltasse ou fosse ao médico de família, dois dias em casa sem me mexer, depois disso canadiana, andar o menos possível, e ala que se faz tarde. E para aqui estou, sem saber se o sangue vai ficar entupido ao ponto de eu explodir, ou se é coisa para ficar descansadinha. A dor na perna ainda cá está, mas muito menos, que não há nada como enfiar uns Voltaren potentes no bucho. Pelo sim, pelo não, amanhã vou a um especialista vascular, que não fiquei contente com as explicações da outra senhora.
Perguntava a um amigo como tinha arranjado um novo namorado. "Apaixonei-me por um bailarino. Fui ver o espectáculo quatro vezes. Declarei-me. E fui correspondido".
Foda-se, assim é que é!
*quando, na verdade, isso é mentira. Só não há é alguém que me surpreenda a mim.
Não há volta a dar: não há um ser neste planeta que não tenha problemas. Era algo de que eu já desconfiava, mas dei por mim a reparar mais nisso nas últimas semanas. Talvez por achar que todos os "problemas" do mundo me tinham caído em cima e que ninguém lhes estava a dar a devida atenção. Ninguém me passava a mão pelo lombo. Ninguém me levava a comer um gelado. Ninguém me tentava distrair. Ninguém se compadecia da minha dor para dizer "é verdade, sim senhora, és uma mártir".
A verdade é que ninguém tem tempo para os meus problemas. Do mesmo modo que eu não tenho tempo para os problemas de ninguém. Porque, na verdade, não são problemas. São trivialidades. Que nos chateiam, que nos aborrecem, que nos deixam triste, que parecem imensas, mas que não passam disso mesmo: trivialidades. E por isso ninguém lhes liga tanto como desejaríamos.
Eu acho que tenho um problema porque sinto falta de amor
Ela tem amor, mas queixa-se de dores no estômago
Ele tem um estômago que funciona às mil maravilhas, mas está farto do trabalho
Ela adora o trabalho, mas diz que ganha mal
Ele ganha fortunas, mas não tem tempo para ir de férias
Ela tem tempo para ir de férias, mas não tem com quem
Ela tem com quem, mas não gosta do corte de cabelo
Ela tem um cabelo fantástico, mas diz que está gorda
Ele está em forma, mas odeia o ginásio
Ela queria ir ao ginásio, mas não tem dinheiro
Ele tem dinheiro, mas a namorada fartou-se, arranjou outro
Ela é fiel como um cão, mas já não gosta dele
Ela tem um casamento de sonho, mas bom mesmo era se tivesse mais filhos
Ela está à espera do primeiro filho, mas estar grávida é uma chatice pegada
TODA a gente se queixa de qualquer coisa, por mais perfeita que seja a sua vidinha. Que se chegue à frente aquele que acha que tem uma vida maravilhosa e que não mudava nada de nada, que assim é que ela está boa. E isto leva-me a fazer uma coisa que já muita gente me aconselhou, mas que eu achei que era parvoíce: relativizar. Dar menos importância aos problemas que gosto de inventar para minha vida. É que, bem vistas as coisas, que problemas é que eu tenho? É óbvio que tenho alguns mas, comparando com quem tem daqueles à séria, o que é que os meus importam?
Tenho sítio para viver? Sim.
Tenho uma família que se preocupa e que nunca me faltou? Sim.
Tenho amigos? Sim.
Tive acesso a educação e a oportunidades que muito boa gente gostaria de ter e não teve? Sim.
Tenho um carro para dar as minhas voltas? Sim.
Tenho dinheiro para as minhas merdas? Sim.
Tenho muito mais do que aquilo que preciso? Sim.
Tenho trabalho? Sim.
Faço aquilo que quero e que gosto? Sim.
Tenho saúde? Sim.
Tenho discernimento para fazer boas escolhas para a minha vida? O suficiente.
É claro que à frente de todos estes "sim" se poderia acrescentar um "mas". Sim, tenho dinheiro, mas podia ter mais. Sim, gosto do que faço, mas não gosto todos os dias, e às vezes farto-me e mentalmente, ameaço bater com a porta. Sim, tenho sítio para viver, mas preferia ter um espaço só meu. Se me dedicar a isso, a minha vida é um gigantesco "sim, mas...". Tenho 27 anos. Qual é o meu maior problema? Não ter namorado? É isso que me faz sentir triste e amargurada? Isso é tão importante como o cabelo da minha amiga, que não está como ela quer. Ou seja, não interessa nada. Eu sei que o cabelo dela vai crescer e ficar giro outra vez (que já está giro, é só fita dela), e ela não liga nenhuma à minha tristeza, porque sabe que não é eterna, que não vou morrer à conta disso (nunca morri!), que não sou marreca nem burra, que dificilmente ficarei sozinha. Mas são estas as nossas dores momentâneas. O cabelo dela, a minha tristeza-ninguém-me-pega-porquê-a-mim-oh-infelicidade. São parvas, são ridículas, são insignificantes quando comparadas a tantas outras, daquelas mesmo à séria. Mas são as nossas, e é por isso que doem. E toda a gente sabe que a nossa dor de dentes é maior e mais trágica que a fome no Ruanda.
O que eu sei é que ando com muito menos pachorra para os problemas. Para os dos outros (apresentem-me dramas à séria, não me chateiem com "não tenho nada para vestir") e, sobretudo, para os meus. Acho que passei demasiado tempo a dar-me importância excessiva. Eu, que sou a drama queen das drama queens. Tudo é o fim do mundo, tudo é de me atirar à cama, em pranto. E, olhando para trás, o que é que isso adiantou à minha vida? Assim de repente, foi... nada? As horas que passei a maldizer a minha vida podiam ter sido passadas a ler. A ver dvds. A ir ao cinema. Ao teatro. A exposições. A jantar com as amigas. A conhecer gente. A dançar. Que não faz esquecer onde nos dói, que não faz, mas atenua, que atenua. Sou a prova-viva daquilo que dizia há tempos. Fecha-se uma porta, daquelas mesmo pesadas, com estrondo. E logo a seguir, sem se esperar, aí está uma janelonga do tamanho do mundo, que nos faz arrepender de ter andado a maldizer a vidinha e nos obriga a agradecer muitas e muitas vezes por tudo aquilo que nos vem parar à mão, às vezes sem esforço nenhum. E talvez seja isso que me faz pensar que não me posso demorar muito a achar que tenho problemas os piores problemas do mundo, muito menos a chorá-los, porque a energia é necessária para usar nas coisas boas que aparecem e pelas quais agradeço de mãozinhas juntas. Não tenho problemas, tenho acidentes de percurso. Alguém não tem?
Relativizar é a palavra de ordem esta primavera-verão.

Pois é, sair à rua com uns belos sapatongos amarelos nos pés é toda uma outra alegria. Sapatos estes que se passearam pelas ruas do Bairro Alto e dançaram até às tantas (dentro daquilo que uns saltos de 10 centímetros permitem, e sempre a ver se não me davam pisadelas, que cetim amarelo é coisa que não se dá bem com manchas... já agora, segue o agradecimento a quem me entornou cerveja no pezinho de Cinderela, o culpado ainda está por apurar).
E como este fim-de-semana foi totalmente dedicado à rambóia, sexta houve momento cultural ("Turbo-Folk", no S. Luiz) e de seguida saltitou-se nas Noites de Leste, com muito Kusturica e outras sonoridades tais (kalashnikov, kalashnikov!!!) . Bem bonito. Nessa noite os sapatos não eram amarelos, mas sim azuis-eléctrico, que isto é uma fase que requer muita cor. "Não sei o teu nome, mas os teus sapatos são super-lindos", disse-me um italiano recém conhecido. Super-lindos acaba de entrar no top das melhores expressões de todos os tempos.
Bom, e aproveita-se o tempo de antena para mandar um grande beijinho à lovely Miss Leididi, que completou ontem 28 anos de uma brilhante existência, e se não fosse ela eu não teria tido a oportunidade de discutir com um funcionário ucraniano que insistia em teimar que o meu jantar não tinha levado picante, quando toda a minha língua latejava. E se não fosse ela eu também não teria ouvido um outro funcionário, desta feita brasileiro, a perguntar-lhe "é seu ânussss? Parabénsssss!!!". Ele há restaurantes que sabem escolher os empregados assim mesmo a dedo.
A entidade patronal entendeu que a melhor forma de me fazer esquecer as agruras da vida era manter-me ocupada. Ou seja, mais trabalho para cima. Eu agradeço, dentro do género, acho até fofinho. O que eu gostava de saber é se quando houver nova paixão também me vai ser dado mais tempo para a gozar. Eu defendo que se deve manter a coerência.
Avisei toda a gente no trabalho. Estava nervosa, preocupada. Podia não voltar a ser a mesma. Vi olhares ansiosos, vi olhares de medo. Sim, eu vi medo. Houve quem preferisse não dizer nada, compreendendo a delicadeza do momento. Houve quem me dissesse que talvez não fosse grande ideia, que mais valia ficar como estava do que submeter-me a semelhante operação. Mas não podia ser. Adiei durante demasiado tempo, agora não havia como voltar atrás. Já estava tudo marcado, já estavam à minha espera, não podia mesmo sucumbir à fraqueza e desistir. À medida que a hora se ia aproximando o nervosismo aumentava, a agonia também. Despedi-me dos meus colegas, pesarosa, mas sem olhar para trás. Houve quem me desejasse sorte mas, felizmente, conseguiram conter as lágrimas, senão teria sido tudo muito mais difícil. Foi uma operação complicada, durou três horas, mas foi bem sucedida e já estou a restabelecer-me. Amanhã já nem me vou lembrar. Obrigada a todos os que mostraram a sua preocupação, que enviaram mensagens a perguntar como tinha corrido, como me sentia. Correu tudo pelo melhor: não me deram cabo do cabelo e estou muitíssimo satisfeita com o corte. Obrigada senhor cabeleireiro (que eu faço figas para que não seja gay, porque era tão giro que apetecia levar para casa e dar festinhas).
O meu coração não anda bem
O que não é nada que eu já não soubesse. O que eu pensava é que não se percebia assim, à vista desarmada. Mas o médico viu. Viu e não se ensaiou nada em me marcar um ECG Simples, um ecocardiograma modo M e Bidimensional, um Electrocardiograma de 24 horas e uma prova de esforço em tapete rolante. E rematou perguntando se não tinha perguntas, se não havia nada que eu quisesse saber. Disse que não. Que só andava a tentar evitar (outro) colapso cardíaco.
Voltei. Pelo abraço da Inês. Pelo jantar de sexta. Pela música Two Hearts. Pelo empate do Benfica. Pelos mails de quem não conheço (o Zé, o Miguel, a Rita, o Ruben, a Inês, a Ana, a Malisa). Pelo beijinho da Rita. Pelas palavras do André. E pelas do Hugo. E pelas da Diana. E pelas do Gonçalo. E pelas da Sónia. E pelas da Ana. E pelas da Ângela. E pelas da Cláudia. E pelas do Diogo. Pelo almoço com a Fi. Pelo Santo António que me deram, verde, esperançoso. Pelos comentários, tantos. Pelas boas notícias. E porque me apetece.